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sábado, 6 de outubro de 2012

O Vidro Embaçado




Texto de: Lucas Montenegro*

 
Voltando pra casa, eu sou eu. Em nenhum momento deixei de ser, mas naquele momento, mais do que nos outros, eu sou eu. O metrô sai da São Francisco Xavier, e eu sentei de frente para a janela. No escuro do túnel, a janela devolve minha figura envolta numa pintura escurecida de parede suja. Olho para mim mesmo e mal diviso meus próprios olhos, escuros que também são. Mas sinto que sou eu, pois estou como sempre estive. Sozinho. Ontem eu ri, eu me diverti, eu brinquei. Por um tempo eu até esqueci. Mas no final, eu sempre volto a ser eu.
Estou sujo. Há um borrado de batom no meu ombro e manchas de cerveja na minha blusa. Meus pés estão marcados onde a tira dos chinelos os toca. Ainda assim não me importo. O meu vazio está lustroso e polido. Brilha ofuscante, como costuma fazer nessas viagens de volta para casa. O meu vazio tem formato de coração, mas não do meu, e ao mesmo tempo, também do meu.
Onde esqueci o tempo que perdi? Lá em cima olhando pro Cristo? Há seis meses atrás, com a vida apoiada na grade da sacada? Já se passaram seis meses desde aquele dia! Seis meses... Cinco anos desde aquele. Quase oito anos desde o primeiro dia em que eu deixei o tempo cair, e meu coração começou a escorrer pelo buraco que ficou. Eu tentei tapar com tudo, mas é um buraco feito de nada.
Olho, mas ainda não consigo perceber bem meus olhos.
Mas então, inesperado, cruel e maravilhoso, o Sol destruiu o meu reflexo, rasgou meus pensamentos. O metrô saiu do túnel. Abaixei os olhos, e quando os levantei novamente, no lugar onde eu mesmo olhava para mim, refulgiam as folhas das árvores agitadas pelo vento, mexendo-se como serpentinas pingando o dourado que o Sol lhes emprestava. De repente lembrei de ontem e ri. As almas cujos oásis ainda não foram sufocados pelas areias do mundo hão de ver-me, e não duvidarão que eu já  testemunhei meu próprio coração desfeito em lágrimas no chão. Eu chego fácil até a melancolia, mas sejamos justos, sabe... Eu já ri muito também.
Quando me virei pra encarar o panorama que se escondia atrás de mim, aproximei sem querer meus lábios do vidro frio, e minha respiração o deixou embaçado. Ri, como quem acha graça da simplicidade do enigma uma vez que a resposta se apresenta. Virei pra frente de novo, mas dessa vez fechei os olhos. Enquanto o vidro continuar embaçando, o tempo perdido nunca será maior que o tempo a ser achado. Enquanto o vidro continuar embaçando, as lágrimas derramadas nunca serão maiores que os rios de amor que correm nos vales escondidos dos corações. De que outra verdade eu preciso? As almas cujos oásis ainda não foram sufocados pelas areias do mundo hão de ver, e não duvidarão
.

* Lucas Montenegro
 é carioca, crônista, e, empresta a sua sapiência, mensalmente, a este espaço. Colaboração.

43 comentários:

Dilmar Gomes disse...

Amigo José, muito bom o texto do Lucas. Um abraço. Tenhas um bom fim de semana.

gla. disse...

Me gustó llegar a tu blog...me cuesta un poco comprender...pero lo hago
Besos

gla. disse...

Me gustó llegar a tu blog...me cuesta un poco comprender...pero lo hago
Besos

Marisete Zanon disse...

Muito bom!!! Fiquei admiradíssima como ele nos prende ao no texto!
Vi que o espaço é maravilhoso, vou ficando por aqui para apreciar mais!
Beijos!

ReltiH disse...

UN TEXTO MUY INTERESANTE Y EXCELENTEMENTE RELATADO.
UN ABRAZO

. disse...

Un saludo desde Málaga

Ame disse...

Mirando el interior, mirando hacía atrás, podemos hundirnos o disfrutar y valorar lo que tuvimos, lo que nos queda, lo que se anida en ese corazón que aunque lleve un hoyito, ha vivido, ha sentido y puede llegar nuevamente a hacerlo.

Besos José

Luis disse...

Hola Jose María:
Ya he podido acceder a tu blog!
He contestado a tu comentario en el mio pues,en principio, no podía acceder al tuyo.
Celebro te haya interesado mi "Quidquid", que como veras, "cualquier cosa" (en latín: Quidquid = cualquier cosa)es motivo para mis entradas...
Con agrado seguiré visitándote y tendrás que disculparme que lo haga en castellano,pues aunque entiendo tu idioma, no soy capaz de escribir ni una sola palabra.
Recibe un cordial saludo,
Luis

Pedro Ojeda Escudero disse...

Gracias a que publicas este texto puedo conocer a un autor que desconocía.

LUZ disse...

Olá estimado Zé,

Como vai?
Mais uma belíssima, profunda e inteligente crónica de Lucas Montenegro.
É bom nos vermos, por dentro, recordar momentos passados, que pareciam terramotos, mas que afinal, há sempre mais além e o sol continuará brilhando.

Beijos da Luz. Bom Domingo.
Que a virgem nos acompanhe!

Célia Rangel disse...

Uma viagem interior sempre surpreende-nos... do que deveríamos... do que fomos... do que somos... Incógnita mesmo.
[ ] Célia.

Helena Sacadura Cabral disse...

Belíssimo texto sobre a solidão de todos nós...
E que dizer, Zé Maria, da solidão acompanhada, que, por norma, se não quebra por medo da outra, daquela de que este texto fala?

Lao disse...

en realidad todos los humanos cargamos con nuestra propia soledad, vivamos en una gran ciudad o en el medio del campo. Depende de cada uno el saberse vincular con los humanos, estén lejos o cerca físicamente, porque todos estamos ligados por un mismo Creador.Muy interesante tu escrito. Muchos saludos.

Crista disse...

Bom texto...mas gosto quando tu escreves,Zozézinho!!!
Não te esqueças de mim,porque eu lembro sempre de ti!
Beijão!otaveix"bem "gandaião"...

Diana L. Ramos disse...

Esta é a "nossa solidão". Lindo texto. Parabéns.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Belo texto amigo! Ótima escolha!

Abraços,

Furtado.

Ricardo Tribin disse...

Gracias por compartir el pensamiento de Lucas Montenegro.

Un abrazo.

Por Amor disse...

Lindíssimas palavras meu Amigo...Sábias e tocantes ...bela reflexão !!! Meus sinceros parabéns Pedro Pugliese

Anônimo disse...

http://thescarletrevolutionary.wordpress.com/2012/10/08/triunfo-la-patria-venezolana-chavez-se-hizo-pueblo-y-se-hizo-un-gran-pedazo-del-mundo/

VILMA PIVA disse...

Bonito texto de profundas questões.
Um prazer te ler! Beijos!

Eu...Suzana disse...

Linda reflexão do interior da alma e do seu modo de ser. Abraços!!

Samara Volpony disse...

Muito bom ler os textos do Lucas. Gosto muito. Parabéns!

Vera Lúcia disse...


Olá José Maria,

O texto é uma beleza e oferece uma leitura agradável, interessante e reflexiva.

Gostei muito.Abraço.

Everson Russo disse...

Sempre bom poder exercer a solidariedade,,,abraços e uma bela noite pra ti amigo.

Angela disse...

Ótimo o texto, adorei.
beijos

Fred Caju disse...

Aí sim não hesito de chamar de cronista.

João Gabriel Filho disse...

Obrigado pela visita e o convite do seu blog. Falando nisso, parabéns, gostei muito do seu, visitarei outras vezes.

Segue abaixo o link do meu blog:

http://www.mearimnet.com.br/

Angel Corrochano disse...

Buen blog el que tienes José. Me alegra haber tenido la oportunidad de conocerlo.
Gracias por pasar y comentar en Fotos que Importan.

Saludos

Ant P disse...

Boa tarde, JM!
Nova mensagem no http://portuguesemforma.blogspot.pt: o dengue ou a dengue?
Abração!
AP

Araceli disse...

Tienes un blog muy interesante, aunque me cuesta un poco entender el texto.

fbm disse...

Gracias por visitar mi blog. Sospecho que tu castellano es mucho mejor que mi portugués (que es absolutamente nulo). Los textos cortos, como la poesía de la entrada anterior, puedo comprenderlos bastante bien, pero los largos, como este, se me hacen un poco cuesta arriba.

TARAUACAAGORA disse...

gostaria que adicionasse meu blog ao seu.
tarauacaagora.blogspot.com.br
grato pela visiya ao meu.

Everson Russo disse...

Uma bela noite pra ti meu amigo...abraços...

Everson Russo disse...

Uma bela noite pra ti meu amigo...abraços...

Livinha disse...

Amigo José,
sempre muito bom os textos com que nos brinda, sejam teus ou de outrem, sempre muito bem escolhidos.
Pergunta que não quer calar,
onde foi que me deixei
que até ontem me reconhecia
e hoje o sentimento perdido
no meio de uma multidão, como se
não se não fosse de ninguém
tal sofrido coração...

No fundo um a um na multidão
sentia-se no mesmo estágio
de solidão, a de si mesmo,
porque o tempo não mais espera
e soldadinhos vamos marchando
de encontro a uma nova era...


Feriado de paz pra você

Bjs

Livinha

Marilyn Recio disse...

Te devuelvo la visita. Un placer leerte.

beijos!

Fabrícia Prado disse...

Olá, adorei o texto... Boa noite qrida

Marina-Emer disse...

un saludo con cariño y un abrazo
Marina

Jailson Mendes disse...

Olá,

Parabéns pelo Blog. Já estou seguindo o seu blog, mas gostaria de vc seguir o meu também. E que me colocasse em sua páginas de Blog que Ler.

Acesse www.jailsonmendes.com

Um abraços

TARAUACAAGORA disse...

prezado José Maria peço que mim adicione na pagina virtual o email é leandrotk.15@hotmail.com ou leandro matthaus. Abraço de uma acreano que adora politica e mulher bonita.

TARAUACAAGORA disse...

eu tbm tenho um programa na radio nova era fm de Tarauacá- Acre.
meu facebook é leandro matthaus do nascimento sousa.
grato meu amigo.

Maria Adeladia disse...

Sábia a reflexão. A solidão faz parte da vida, é vivendo-a, que recordamos momentos passados, e isso é bom. Ela em algumas situações, nos ajuda muito!

Beijos e uma ótima tarde, José!

A VOZ LUMINENSE disse...

http://avozluminense.blogspot.com.br/