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quinta-feira, 22 de julho de 2010

É UMA ROTINA TIROS EM ESCOLAS DIZ DIRETORA

22/07/2010 - 13h01 / Atualizada 22/07/2010 - 14h34 "É uma rotina", diz diretora sobre troca de tiros perto de escolas no RJ; ao menos 150 estão em áreas de risco
Daniel Milazzo
Especial para o UOL Notícias
No Rio de Janeiro
Assim como Wesley Rodrigues, 11, que morreu de forma trágica na última sexta-feira (16) ao ser atingido por uma bala perdida enquanto assistia a uma aula na zona norte do Rio de Janeiro, alunos de dezenas de escolas municipais localizadas em áreas de risco são expostas constantemente à violência.

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“É uma rotina mesmo. A gente quase acaba se acostumando, porque a gente está dando aula e daqui a pouco o primeiro tiro é dado, começa o confronto e a gente tem que rastejar pela sala para sair para o corredor”, relata Edna Félix, membro da diretoria do Sindicato Estadual de Profissionais da Educação (Sepe).

De acordo com dados da Polícia Civil do Rio de Janeiro e da Secretaria Municipal de Educação (SME), organizados pela ONG Rio Como Vamos, em 2009 havia 150 escolas municipais em áreas críticas incluídas no programa “Escolas do Amanhã”. Isso representa 14,9% do total de 1.007 escolas municipais em toda a cidade, segundo o levantamento. Nem todas as escolas em áreas de risco, entretanto, fazem necessariamente parte do programa social.

As regiões onde o número absoluto de escolas em áreas de risco ultrapassa uma dezena são: Bangu (22), Ramos (15), Santa Cruz (14) e Pavuna (11). A escola de Wesley, o Ciep Rubens Gomes, está dentro da região da Pavuna, estatisticamente uma das áreas mais perigosas, onde 26,8% das escolas convivem com a iminência de tiroteios.

A região administrativa de Ramos, que compreende os complexos de favelas da Maré e do Alemão, também traz uma alta taxa, de acordo com o estudo: 32,6% das escolas municipais estão em áreas de confronto.

Segundo a SME, “as 150 unidades da rede municipal que integram o programa [Escolas do Amanhã] foram selecionadas a partir de um critério básico, além de estarem localizadas em regiões dominadas pelo narcotráfico ou milícias ou ainda recém-pacificadas: a taxa de evasão escolar". De acordo com o órgão, mais de 108 mil alunos são atendidos.

Entre as atividades do programa, a única que atua na segurança é o método chamado Uerê-Mello. Coordenadores das unidades passam por um curso de 60 horas a fim de aprender a trabalhar com crianças e jovens que apresentam problemas de aprendizagem em função da convivência diária com situações de violência.



De acordo com a secretaria, 62 das 150 escolas atingiram as metas, estabelecidas a partir da comparação entre os resultados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 2009 com o de 2007. Em agosto deste ano, professores e funcionários dessas escolas receberão um prêmio de um salário e meio como recompensa.




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“Ali se vive em conflito constante”
Edna Félix é diretora da regional 3 do Sindicato Estadual de Profissionais da Educação (Sepe), secção que compreende bairros como Inhaúma, Tijuca, Méier, Engenho da Rainha e abrange aproximadamente 220 escolas. Ela leciona para crianças entre 9 e 11 anos em uma escola próxima a uma comunidade da região.

“Ali se vive em conflito constante. A polícia invade a comunidade por uma rua colada à escola. Normalmente, quando começa o tiro, o confronto é em frente à nossa escola. A polícia fica em frente, os bandidos lá atrás. Não tem proteção nenhuma”, relata.

Edna conta ainda que os assaltos na rua são frequentes. “Vira e mexe tem pessoas assaltadas ali, pessoas que tem que sair do carro porque o bandido está levando”, afirma, lembrando que pelo menos duas professoras já foram roubadas.

A diretora afirma que, no ano passado, foi elaborado um dossiê com detalhes das precárias condições de segurança e um pedido de blindagem das janelas. O documento foi encaminhado ao Ministério Público e à Secretaria Municipal de Educação. Desde então a escola aguarda uma resposta. “Eles ignoram solenemente a questão”, diz. Nesta segunda-feira (19), o prefeito Eduardo Paes informou, em nota, que pretende instalar blindagem à prova de tiros nas escolas da cidade.

Bastidores do medo
Sob a condição de não ser identificado, outro docente da rede municipal revela o estado de nervos dos alunos quando há conflitos na região da escola. “É muito choro, porque muitos deles têm pessoas que são do tráfico, familiares, tios, primos, e aí já vislumbram a possível morte dessas pessoas... Fora aqueles que apesar de não ter parente nenhum [ligado ao tráfico] têm a preocupação da mãe que está dentro da comunidade, o pai que está lá dentro, que correm o risco de serem atingidos. Eles conhecem o terror que a comunidade vive também”, afirma.

“Os alunos ficam muito nervosos. Não tem essa de ‘eles já estão acostumados’. Não, eles ficam nervosos mesmo. E querem saber notícias, como estão os parentes, querem saber se está tudo certo. E aí a gente tem que ir para o corredor, mas que também não garante segurança. Um corredor onde também há muitas janelas. Não tem espaço na escola que dê proteção.”

“Não existe condição de voltar a dar aula. A gente encerra a aula nesses dias. São vários dias que a gente perde nesses períodos de maior confronto. É um dia perdido”, lamenta. Questionada pelo UOL Notícias, a secretaria não informa quantos dias de aula já foram perdidos em virtude de situações que ponham alunos, professores e funcionários em risco.

O professor afirma que, quando há uma trégua, os pais correm para pegar seus filhos e levá-los embora para casa. “Tem determinados períodos, quando sabemos que estão acontecendo as operações policiais ou as invasões de outros comandos, que são uma tensão só. A gente sai no dia anterior, debaixo de tiroteio, e quando volta, a tensão é enorme. Você não sabe o que vai acontecer”, desabafa.

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